Mulheres convivem com dores pélvicas desde que o mundo é mundo. Hieróglifos do Antigo Egito registram o flagelo do período menstrual, possivelmente provocado pela endometriose.
O chamado Papiro de Kahun, escrito na região por volta de 1.825 a.C., é considerado um dos primeiros textos médicos dedicados à ginecologia. Ele mencionava esse tipo de dor, mas a endometriose só seria cientificamente descrita no século XIX. Em autópsias realizadas na Áustria em 1860, o patologista Karl von Rokitansky documentou a presença, fora do útero, de tecido semelhante ao da camada interna do órgão – o chamado endométrio.
O que é a endometriose e por que ela dói
Além dessa semelhança, o tecido encontrado fora da cavidade uterina se comporta como o endométrio. Todos os meses, ele tem a função de proliferar com o objetivo de preparar o útero para a gravidez. Caso ela não ocorra, esse revestimento se descama pela ação de hormônios e surge o sangramento menstrual.
O problema é que, nos casos de endometriose, esse tecido sangra onde estiver: na bexiga, no músculo do antebraço, no cérebro, em qualquer parte do corpo. Em uma de minhas pacientes, a endometriose chegou ao diafragma. Quando ela menstrua, sente falta de ar. Sim, isso acontece e é dramático.
Por que o diagnóstico ainda demora tanto
Minha longa convivência com mulheres em sofrimento gerou a angústia e o inconformismo que me impulsionaram a publicar um livro e a persistir no doutorado. É terrível ver que, no século XXI, quase dois séculos depois da descrição da doença, ainda exista tanto atraso no diagnóstico e tanto desamparo às pacientes.
Quando uma mulher procura o ginecologista por qualquer outra razão, é normal que ele pergunte sobre a duração do ciclo, o intervalo entre as menstruações e queira saber se ela sente dor. Só nesse momento, muitas mulheres com queixas como corrimento ou nódulo de mama revelam sentir fortes dores desde as primeiras menstruações.

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